Em tempos de Copa do Mundo, festas juninas e, em breve, campanhas políticas, uma cena se repete em muitas cidades brasileiras: o céu iluminado por fogos, o estampido de foguetes, bombas e rojões ecoando pelas ruas. Para alguns, é sinônimo de festa. Para outros, porém, representa medo, dor e sofrimento.
A verdade é que uma comemoração não precisa ser confundida com barulho excessivo.
Gritar um gol, bater palmas, cantar, dançar, tocar música em volume moderado, usar bandeiras, buzinas e reunir amigos são formas legítimas e alegres de celebrar. Mas quando a celebração provoca sofrimento ao próximo, surge uma reflexão necessária: será que estamos comemorando ou impondo nossa alegria à força sobre os demais?
Os fogos de artifício com estampido não atingem apenas o céu. Eles atingem pessoas.
Muitos idosos se assustam com explosões repentinas. Pacientes internados em hospitais podem sofrer aumento do estresse e da ansiedade. Bebês despertam assustados durante a noite. Pessoas em recuperação de doenças enfrentam desconforto físico e emocional.
Entre os grupos mais afetados estão as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para muitos autistas, a hipersensibilidade auditiva faz com que sons intensos sejam percebidos de forma muito mais forte do que pela maioria das pessoas. O que para uns é apenas um estouro, para outros pode significar dor física, crises de ansiedade e momentos de grande sofrimento.
Os animais também são vítimas silenciosas.
Cães e gatos possuem audição muito mais sensível que a dos seres humanos. Durante períodos de fogos, muitos entram em pânico, tentam fugir, sofrem ferimentos, desaparecem ou até morrem em decorrência do estresse extremo. Não é raro que protetores de animais e clínicas veterinárias relatem aumento nos casos de fuga e acidentes nessas épocas do ano.
E há outro aspecto que nem sempre recebe atenção: o risco para quem manuseia os artefatos.
Todos os anos, hospitais registram queimaduras, mutilações e acidentes graves provocados pelo uso inadequado de fogos e explosivos. Em muitos casos, o momento que deveria ser de alegria termina em tragédia.
Mais do que uma questão de gosto pessoal, o tema também envolve legislação. Diversos estados e municípios brasileiros já aprovaram normas restringindo ou proibindo fogos de artifício com estampido, justamente em razão dos impactos sobre pessoas e animais. Ainda assim, a eficácia dessas leis depende não apenas da fiscalização, mas também da consciência coletiva.
Respeitar o próximo é uma das maiores demonstrações de civilidade.
A alegria de um gol do Brasil, a animação de uma festa junina ou a empolgação de uma campanha política não precisam ser traduzidas em explosões. A verdadeira celebração é aquela que inclui, e não exclui; que une, e não causa sofrimento.
Uma sociedade mais humana não é aquela que faz mais barulho, mas aquela que consegue celebrar sem ferir.
Porque no fim das contas, comemorar é um direito. Mas viver em paz, com segurança e dignidade, também é.
“Solte alegria, não explosões.”
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