MATÉRIA ESPECIAL Agosto Lilás: quando o silêncio deixa de ser silêncio, começa a proteção

   


Mais do que uma cor no calendário, o Agosto Lilás é um chamado para reconhecer a violência, romper o silêncio e construir uma sociedade onde nenhuma mulher precise escolher entre permanecer calada e sobreviver.

Há violências que deixam marcas no corpo. Outras, porém, não aparecem em fotografias, não são percebidas em um exame e, muitas vezes, nem sequer são reconhecidas por quem está sofrendo.

Uma frase repetida todos os dias.
Uma humilhação disfarçada de brincadeira.
Um celular fiscalizado.
Uma roupa escolhida por outra pessoa.
O afastamento dos amigos e da família.
O medo de contrariar.
A ameaça velada.
O dinheiro controlado.
A culpa colocada sobre quem está sendo ferida.

É nesse território, muitas vezes invisível aos olhos de quem está de fora, que começa uma parte importante da discussão proposta pelo Agosto Lilás.

Mais do que uma campanha, o movimento representa um convite à sociedade para compreender que a violência contra a mulher não começa necessariamente com uma agressão física. Ela pode surgir de maneira silenciosa, gradual e, muitas vezes, dentro de relações nas quais deveria existir afeto, respeito e segurança.

A violência que nem sempre deixa hematomas

A Lei Maria da Penha reconhece diferentes formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

E compreender essa diversidade é fundamental.

A violência psicológica, por exemplo, pode atingir profundamente a autoestima, a autonomia e a percepção que uma mulher possui de si mesma. Insultos constantes, ameaças, constrangimentos, manipulações, isolamento e controle podem fazer com que a vítima passe a duvidar das próprias decisões.

Para profissionais da saúde mental, esse aspecto é especialmente importante porque a violência prolongada pode afetar a maneira como a pessoa se percebe, se relaciona e toma decisões.

Por isso, dizer simplesmente “é só ir embora” pode revelar uma incompreensão profunda sobre o que significa estar submetida a uma relação abusiva.

Sair pode exigir apoio psicológico, proteção, condições financeiras, suporte familiar, orientação jurídica e, em determinadas situações, medidas de segurança.

Não é apenas uma decisão.

É, muitas vezes, um processo.

O ciclo que prende sem correntes

Um dos maiores desafios no enfrentamento da violência doméstica é compreender que relações abusivas podem apresentar períodos de tensão, agressão, pedidos de desculpas e aparente reconciliação.

Depois da violência, podem surgir promessas de mudança, demonstrações de arrependimento e momentos de tranquilidade.

É justamente essa alternância que pode tornar a situação ainda mais complexa.

A mulher pode acreditar que aquela foi “a última vez”.

Pode acreditar que ele vai mudar.

Pode sentir vergonha.

Pode pensar nos filhos.

Pode depender financeiramente do parceiro.

Pode ter medo de não ser acreditada.

Pode temer uma retaliação.

Pode simplesmente não saber para onde ir.

É por isso que a rede de proteção precisa substituir o julgamento pelo acolhimento.

“Por que ela não denuncia?”

Talvez uma das perguntas mais injustas seja justamente essa.

Antes de perguntar por que uma mulher não denunciou, talvez seja necessário perguntar:

O que fez com que ela tivesse medo de denunciar?

Quem estava ao lado dela?

Ela tinha para onde ir?

Tinha independência financeira?

Estava sendo ameaçada?

Tinha filhos?

Sabia que poderia procurar ajuda?

Encontrou acolhimento quando tentou falar?

A violência doméstica não deve ser analisada apenas pelo momento da agressão. É necessário compreender o contexto que envolve a vítima e os mecanismos que podem mantê-la presa àquela realidade.

Por isso, profissionais de psicologia, psiquiatria, psicanálise, assistência social, direito, segurança pública e saúde possuem papéis importantes dentro de uma rede que precisa funcionar de maneira integrada.

O silêncio também precisa ser ouvido

Existe uma mulher que talvez nunca tenha contado a ninguém o que acontece dentro de casa.

Ela pode estar sentada ao nosso lado.

Pode ser uma vizinha.

Uma colega de trabalho.

Uma amiga.

Uma irmã.

Uma mãe.

Uma filha.

E talvez a única coisa que ela esteja esperando não seja uma pergunta agressiva, mas alguém que diga:

“Eu acredito em você.”

Acolher não significa decidir pela vítima.

Significa oferecer segurança, informação e apoio para que ela possa compreender suas possibilidades e buscar ajuda.

E os homens?

Falar sobre violência contra a mulher também significa falar sobre os homens.

Não apenas sobre os homens que cometem violência, mas sobre aqueles que podem ajudar a transformar comportamentos, educar filhos e filhas para relações baseadas no respeito e questionar uma cultura que, durante muito tempo, naturalizou comportamentos de controle, posse e dominação.

O enfrentamento da violência não pode ser responsabilidade exclusiva das mulheres.

É responsabilidade de toda a sociedade.

Homens precisam participar dessa conversa.

Pais precisam conversar com seus filhos.

Escolas precisam educar para o respeito.

Famílias precisam deixar de tratar agressões como “problemas de casal”.

Comunidades precisam saber acolher.

E instituições precisam garantir proteção.

Agosto Lilás não pode terminar em agosto

Talvez esse seja um dos pontos mais importantes da campanha.

Não adianta pintar uma fachada de lilás, publicar uma arte nas redes sociais ou falar sobre violência durante alguns dias se, depois, tudo volta ao silêncio.

A conscientização precisa continuar.

A prevenção precisa começar antes da primeira agressão.

A educação precisa ensinar que amor não é posse.

Que ciúme não é prova de amor.

Que controle não é cuidado.

Que humilhação não é brincadeira.

Que ameaça não é discussão de casal.

E que ninguém tem o direito de violentar outra pessoa.

20 anos de Lei Maria da Penha

Em 2026, o Brasil marca duas décadas da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006. A legislação se tornou um dos principais instrumentos brasileiros de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher.

Ao longo desses anos, a legislação e a rede de proteção passaram por avanços, mas a existência da lei não significa que a missão esteja cumprida.

Leis são fundamentais.

Mas leis precisam ser conhecidas.

Precisam ser aplicadas.

Precisam chegar a quem necessita delas.

E precisam caminhar junto com educação, prevenção, acolhimento, assistência psicológica, assistência social, orientação jurídica e políticas públicas.

Para quem está sofrendo: você não precisa enfrentar isso sozinha

Se existe violência dentro da sua casa, procure ajuda.

Se você conhece uma mulher que está passando por uma situação de violência, não minimize o que ela está vivendo.

Não diga que “isso é problema de marido e mulher”.

Não culpe a vítima.

Não transforme sua dor em fofoca.

Ofereça escuta.

Ofereça apoio.

Ajude-a a encontrar os serviços da rede de proteção.

E, quando houver risco, procure os canais oficiais de atendimento e as autoridades competentes.

O enfrentamento começa quando a violência deixa de ser tratada como assunto privado e passa a ser reconhecida como uma questão de direitos, segurança, saúde e dignidade.

A cor lilás é um lembrete

O lilás pode estar nas campanhas, nas roupas, nas fachadas, nas redes sociais e nos eventos.

Mas seu verdadeiro significado precisa estar nas atitudes.

Está na pessoa que decide não permanecer indiferente.

Está no profissional que acolhe sem julgar.

Está na família que acredita.

Está no amigo que não silencia diante de uma ameaça.

Está no homem que ensina seus filhos que respeito não é opção.

Está na sociedade que entende que nenhuma mulher deve viver com medo dentro da própria casa.

Porque combater a violência contra a mulher não é apenas defender uma causa.

É defender o direito básico de qualquer ser humano de viver com dignidade, liberdade e segurança.

Agosto Lilás é sobre falar.

Mas, acima de tudo, é sobre ouvir.

É sobre acolher.

É sobre proteger.

É sobre prevenir.

É sobre agir.

E quando uma mulher encontra coragem para romper o silêncio, a sociedade precisa ter coragem para não virar o rosto.

Informação também é uma forma de proteção.

Importante: em situação de violência ou risco, procure os serviços oficiais da rede de proteção e os canais de atendimento disponíveis em sua região. A orientação adequada pode fazer diferença para a segurança da vítima.

Por Cosme Jales

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