GETÚLIO VARGAS: A ÚLTIMA NOITE

    

Uma trajetória marcada pelo poder, pelas transformações sociais, pela controvérsia e por um desfecho que abalou o Brasil

Poucos personagens da história política brasileira provocaram tantas transformações e, ao mesmo tempo, despertaram tantas interpretações quanto Getúlio Dornelles Vargas.

Nascido em São Borja, no Rio Grande do Sul, em 19 de abril de 1883, Vargas construiu uma trajetória que o levaria ao centro da política nacional. Foi deputado, governador do Rio Grande do Sul e, a partir de 1930, tornou-se uma das figuras mais importantes da República brasileira.

Sua chegada ao poder ocorreu após o movimento de 1930, que derrubou o presidente Washington Luís. A partir dali, Vargas permaneceu ligado à Presidência por diferentes períodos: primeiro no Governo Provisório, depois em um governo constitucional e, entre 1937 e 1945, durante o Estado Novo, regime autoritário que concentrou poderes nas mãos do presidente.

UM BRASIL EM TRANSFORMAÇÃO

Durante a Era Vargas, o Brasil passou por profundas mudanças na organização do Estado e nas relações entre trabalhadores e empregadores.

Seu governo esteve associado à consolidação de direitos trabalhistas e à criação de instituições que marcaram a estrutura do Estado brasileiro. Entre as realizações lembradas pelo Senado estão a legislação trabalhista, a criação da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda e, posteriormente, a criação da Petrobras, em seu segundo governo.

Mas a história de Vargas não pode ser contada apenas pelo lado das realizações.

Entre 1937 e 1945, o Brasil viveu o Estado Novo, período ditatorial marcado pela concentração de poder, restrições às liberdades políticas e fechamento do Congresso. Por isso, sua trajetória permanece sendo analisada sob diferentes perspectivas pelos historiadores.

A VOLTA PELO VOTO

Depois de ser afastado do poder em 1945, Vargas retornou à política.

Em 1950, candidatou-se novamente à Presidência e venceu a eleição pelo voto popular, assumindo o cargo em 31 de janeiro de 1951.

Nesse segundo governo, retomou uma política de forte nacionalismo econômico. Um dos grandes símbolos desse período foi a campanha em defesa do petróleo brasileiro, que culminou na criação da Petrobras em 1953.

Mas o ambiente político estava cada vez mais dividido.

Vargas enfrentava forte oposição de setores políticos, parte da imprensa e grupos militares. Entre seus principais adversários estava o jornalista e político Carlos Lacerda.

O ATENTADO QUE MUDOU TUDO

Na madrugada de 5 de agosto de 1954, Carlos Lacerda sofreu um atentado na Rua Tonelero, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Lacerda sobreviveu, mas o major-aviador Rubens Vaz, que o acompanhava, morreu.

As investigações apontaram integrantes da guarda pessoal de Vargas para o episódio. A Aeronáutica abriu um inquérito próprio, que ficou conhecido como “República do Galeão”. A crise política cresceu rapidamente e a pressão pela saída do presidente aumentou.

Nas Forças Armadas, a pressão tornou-se cada vez maior. Em agosto, oficiais passaram a exigir a renúncia de Vargas.

Na noite de 23 de agosto, diante da crise, Vargas reuniu seus ministros. A alternativa de um afastamento temporário chegou a ser aceita, enquanto as investigações prosseguissem. Poucas horas depois, entretanto, a situação mudou novamente.

A MANHÃ QUE PAROU O BRASIL

Na manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas morreu no Palácio do Catete, então sede da Presidência da República.

O presidente tirou a própria vida com um tiro no coração e deixou uma carta-testamento.

A notícia se espalhou rapidamente pelo rádio e provocou uma enorme comoção popular. A Carta-Testamento foi transmitida para todo o país, enquanto multidões tomavam as ruas.

A morte de Vargas alterou imediatamente o cenário político brasileiro. O vice-presidente João Café Filho assumiu a Presidência.

A repercussão foi tão intensa que manifestações populares atingiram jornais e outros símbolos ligados à oposição ao presidente. O episódio passou a fazer parte de uma das páginas mais dramáticas da história política brasileira.

UM LEGADO QUE AINDA PROVOCA DEBATES

Mais de sete décadas depois, Getúlio Vargas continua sendo um personagem impossível de ser compreendido por apenas uma definição.

Sua trajetória reúne períodos democráticos e autoritários, medidas de proteção trabalhista e concentração de poder, nacionalismo econômico e forte conflito político.

Para alguns estudiosos, seu governo representou uma mudança profunda na relação entre Estado e trabalhadores. Para outros, é indispensável destacar também o caráter autoritário do Estado Novo e as limitações políticas daquele período.

O fato é que Vargas deixou uma marca profunda na história brasileira.

Sua morte, em 1954, encerrou uma trajetória política de mais de duas décadas no centro das decisões nacionais, mas não encerrou o debate sobre seu papel na formação do Brasil moderno.

Getúlio Vargas morreu naquela manhã de agosto de 1954. A discussão sobre o que ele representou para o Brasil, porém, atravessou gerações.

FOLHA SANJOENSE — MEMÓRIA E HISTÓRIA

Relembrar personagens como Getúlio Vargas não significa apenas recordar uma pessoa. É também revisitar momentos que ajudaram a construir o país que conhecemos hoje.

História não é apenas aquilo que aconteceu. É também a oportunidade de compreender por que o Brasil chegou até aqui.

Fontes: Fundação Getulio Vargas/CPDOC e Senado Federal.

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